Isqueiros

A Licença

Ano 1970, dia entre 13 de Janeiro e Maio, cidade Lisboa, Rua do Ouro (ou Áurea).
Acendo um cigarro com um isqueiro e oops!!! um sorridente agente da polícia à paisana, mostra-me o crachá e pede-me a licença para usar isqueiro, ou correctamente a «Licença anual para uso de acendedores e isqueiros». Apresento o fantástico cartão selado e assinado e o sorriso do agente passou a amarelo. Guardei o isqueiro e não tive de pagar 250$00 porque tinha obtido a licença para esse ano por 50$00.

As indicações existentes no verso da licença poderão justificar o sorriso do agente.
Pormenor: a licença que vigorava desde 1937 foi revogada em Maio de 1970.
verso da licença de isqueiro
A licença tinha como objectivo proteger a indústria fosforeira nacional, que era relevante pelos capitais envolvidos, pela mão de obra que empregava, pelo volume das exportações e pelos impostos cobrados (1). Com o mesmo objectivo, a União Europeia tem adoptado procedimentos contra a importação massiva de isqueiros, protegendo a sua indústria localizada sobretudo em França, Reino Unido e Espanha (2).

A União Europeia também legislou sobre isqueiros com outro objectivo: a segurança. Assim, em Portugal, desde Março de 2008 os isqueiros descartáveis passaram a ter uma patilha de segurança para evitar que crianças com menos de 5 anos os possam acender(3).

O isqueiro e as armas

Ao adquirir um isqueiro procura-se segurança mas também que funcione sempre quando necessário, isto é, que se dê a ignição de um elemento combustível (4). O mesmo acontece com as armas.

Isqueiros e armas têm em comum: segurança, fiabilidade e a produção de fogo.

Quando em 1584 o borgonhês Balthasar Gérard, apoiante de Filipe II de Espanha, empunhando uma pistola com «fecho de roda» assassinou o príncipe Guilherme d’Orange com um tiro à queima roupa, no peito (5), nunca poderia imaginar que o sistema de disparo da sua arma haveria de ser usado em isqueiros.
Para a consecução do assassinato que tão bem preparou, Gérard comprou duas armas com «fecho de roda», sistema fiável e seguro desenhado por Leonardo da Vinci, cerca da viragem para o século XVI, mas que pode ter sido inventado por um mecânico alemão desconhecido (6).

O «fecho de roda» (7) é composto por:

•  uma roda serrilhada com mola, que está dentro de uma caixa de igual formato e que tem uma pequena abertura; e,

•  uma haste – “cão” – com garras e mola, que apertam um pedaço de pirite (por ventura alentejana).

Estas duas peças estão montadas numa placa metálica, à qual se liga o mecanismo do gatilho.

O “cão” tem duas posições:

•  em segurança – mantem a pirite afastada da roda; e,

•  pronta para ser disparada – coloca a pirite alinhada com a abertura da caixa da roda sob tensão da mola, ainda que afastada da roda por uma patilha.

Para a mola da roda funcionar tem de se dar corda com uma chave, como se de um relógio se tratasse.

Sequência de funcionamento

arma
Premido o gatilho a patilha na abertura da caixa da roda afasta-se permitindo que a pirite entre em contacto com a roda, entrando esta em rotação sob acção da mola. A fricção da pirite gera faíscas incendiando a pólvora.
isqueiro
Fazendo rodar a roda serrilhada com o polegar gera-se atrito com a pedra resultando faíscas que iniciam o combustível.

Etimologia

Isqueiro é uma palavra brasileira (8), com que os mazombos, filhos de pais europeus nascidos no Brasil, denominavam uma «caixa» contendo o artigo necesserário à produção de fogo.

O texto (9) do naturalista português Alexandre Rodrigues Fernandes, que ao serviço de D. Maria I, durante nove anos foi da Amazónia a Mato Grosso, é explícito:
«o que os Portugueses chamam Isca, para o fogo, da palavra latina esca mudando o (e) em (i), chamam os Índios Tatápotaba. …tatápotaba-rerú, vem a dizer o mesmo que Lugar, ou caixa do pasto do fogo. Tal é o nome que tem esta peça. Os Mazombos a chamam Isqueiro.
Há nele 2 coisas a considerar, o cilindro que serve de caixa à sobredita isca e a isca em si. Quanto à primeira é um gomo de cana…
Para servir de isqueiro fura-se o diafragma do fundo do gomo: pelo furo se empurra com um pau ponteagudo ou com outro instrumento a isca para cima, a proporção que o fogo consome a que fica imediatamente ao bocal. …
Quanto à isca de que está provido o isqueiro, é uma matéria tirada dos ninhos da formiga taracuhá: ela tem o trabalho de recolher esta substância que não é outra coisa mais, do que o cotão da página exterior da folha da árvore paranary. os índios têm o cuidado de o aproveitarem para a isca, depois de recolhido, e ajuntado pelas formigas. Usam dele em ambas as capitanias e para ferirem lume, não se afligem pela falta de fuzil. Esfregam entre si dois paus que sempre escolhem de madeira mole, como o cacau, o molongó, o curumi-ihua os talos dos cachos das palmeiras patauhá, ibacacabas, obossú, e o movimento excitado pelo atrito excita o fogo.

Da pele do pescoço da tartaruga yurarrá-reté, é feito o tampo do gomo: serve para preservar a isca da humidade e para lhe apagar o fogo privando-a do ar, que o entretem, enquanto é preciso.»

Os pastores algarvios usam ou usavam um isqueiro que tem afinidade com o isqueiro dos índios brasileiros, sendo composto por madeira, vidro e isca contidos numa carteira de couro (10).

Notas:
(1) https://www.museudosfosforos.vidasmundanas.net/files/u1/downloads/A%20industria%20fosforeira%20em%20Portugal.pdf
(2) COUNCIL REGULATION (EC) No 174/2000 of 24 January 2000 – https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/HTML/?uri=CELEX:32000R0174&from=EN
(3) Decreto-Lei nº 172/2007 de 8 de Maio
(4) A maioria dos isqueiros funcionam com combustível
(5) https://en.wikipedia.org/wiki/William_the_Silent
(6) https://en.wikipedia.org/wiki/Wheellock#Design
(7) Chant, Christopher, “How Weapons Work”, Marshall Cavendish Limited, 1980
(8) Figueiredo, Cândido, “Pequeno Diccionário da Língua Portuguesa”, S.E. Arthur Brandão & Cª, Lisboa, 1924
(9) documento original: https://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_manuscritos/mss1456797/mss1456797.pdf
documento em português do Brasil: https://www.filologia.org.br/pereira/textos/memoria_sobre_o_isqueiro.htm
(10) https://www.proactivetur.pt/images/upload/ANEXO%20Digital%203%20-%20Cat%C3%A1logo%20da%20exposi%C3%A7%C3%A3o.pdf

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